Versos em Brasília: a cidade que pulsa na poesia de Nicolas Behr

Brasilírica, obra que reúne quase quarenta anos de poesia sobre Brasília, revela o poder de uma literatura ainda pouco conhecida. 

Por Pamella Elly Alves dos Santos

Brasília, cidade do concreto nervoso, do cerrado quente que ferve no asfalto e dos ipês floridos, está na voz de Nicolas Behr. No livro Brasilírica, o poeta brasiliense reúne 98 poemas mais emblemáticos sobre a capital, cobrindo textos escritos entre 1977 e 2014, muitos retirados de obras como Poesília — Poesia Pau-Brasília (2002), Braxília Revisitada (2004), Brasilíada (2010), Brasifra-me (2013) e A teus Pilotis (2014). 

Brasilírica vai além de uma simples reunião de poemas: é um convite para conhecer a capital e suas mutações. Há o morador que se irrita com o calor, que observa silêncio onde deveria haver vida, que sente saudade de algo que nem sabe ao certo. Há também Brasília esperançosa, que resiste, ri e ama. Os poemas antigos e os mais recentes conversam entre si e nos mostram a grandeza da nossa capital.

SAUDADES DE BRAXÍLIA 

soltar pipa no eixão
nadar e pescar no paranoá
comer pastel na rodoviária
estacionar no setor comercial sul
voltar da festa a pé, altas horas
catar gabirobas perto da catedral
namorar embaixo do bloco
cruzar a L2 de patins e a W3 de skate
pegar um grande circular e circular
de mãos dadas com o banco
ver estrelas, muitas estrelas
pescar no riacho fundo,
que hoje atravesso a pé
erik volta do parquinho com
sementes de leucena na mão e
pergunta: são essas as sementes
que você colocou
na minha mãe?

BEHR, Nicolas. Poesília: poesia pau-brasília. Brasília: Editora Língua Geral, 2002. 84 p.

A literatura brasiliense, embora pouco conhecida, carrega grandes autores como Nicolas Behr, Maria José Silveira e Lourenço Mutarelli, que ajudaram a formar o mosaico dessas produções literárias, mas o reconhecimento nacional ainda é tímido. Grande parte dos leitores brasileiros conhece Brasília apenas por sua política ou por sua arquitetura, poucos sabem que existe uma literatura que pulsa e tem muito a dizer. Nicolas Behr é uma das vozes que continuam a provar que Brasília não é apenas o centro do poder, é o lugar onde a poesia resiste e insiste em nascer.

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