Quantos beijos no asfalto é necessário para matar um homem?

Por Fernando de Oliveira Aquino

“Agorinha, na Praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado… diz Amado;

“E daí?” retruca Cunha; “De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca. ” afirma Amado para o Delegado Cunha.

Esse é um dos primeiro momentos da peça de teatro “” escrita por Nelson Rodrigues, contando a história de Arandir que ao ver um homem jovem ser atropelado e, tomado por uma sensação de empatia e piedade, realiza o último desejo do atropelado e, por consequencia, comete um dos crimes mais hediondo diantes da moral e bons costumes da sociedade brasileira sessentista, ele o beija. Depois desse ato, a vida de Arandir é destruída. Sua esposa suspeita que ele seja homossexual, mentiras são iventadas sobre sua relação com o morto, ele precisa fugir e no fim ele é assassinado pelo ciume de outro homem. E tudo isso, toda essa série de desventuras, por um beijo.

Arandir é um homem bom. Um bom marido, honesto, trabalhador, masculo e fiel a sua esposa. Ele é tudo aquilo que é esperado de um homem e tudo aquilo que os outros veem como homem. Ser um homem não é condição inata ao que carrega entre as pernas, isso é só detalhe, ser homem é você responder positivamente aos papeis de masculinidade que é esperado daqueles que carregam algo entre as pernas.

Como uma lista de atividades da escola, você precisa escolher as opções corretas, fazer as logicas corretas e escrever da forma correta ou você vai reprovar, virando motivo de chacota. Arandir era um homem, mas ele não foi capaz de escolher a opção correta e por isso ele precisa ser reprovado. A história de Arandir é um espelho das relações delicadas de gênero. Todos à sua volta são incapazes de compreender o que levaria um homem a fazer algo tão anormal, porque o beijo é uma quebra de contrato.

Quando falamos sobre o que é “ser homem” estamos falando sobre a diferença entre as qualidades inatas e qualidades atribuidas a gênero. Nascer do sexo masculino ,ou com algo entre as pernas, é uma qualidade inata; “ser um homem” é uma qualidade atribuida. Nossa sociedade se montou sobre esse conceito, ser um homem é parte essencial da sociedade. Sem homens quem vai carregar coisas pesadas? Quem vai liderar?

Quem vai começar guerras? Quem vai pagar?

Quando um indivíduo foge dessas normas ele é repreendido, pois isso é uma afronta às bases da sociedade.

Um beijo, um ato de carinho a outro homem, foi tudo que precisou para destruir a vida de Arandir. E na vida real, tudo que precisa é o menor dos atos para você deixar de ser homem. Aqueles que desafiam esse rótulo precisam se justificar, mesmo fazendo atos de carinho ou cuidado. Você precisa afirmar que é homem e que é capaz de dar beijos no asfalto.

Arandir tenta se justificar, mas é uma tentativa infrutífera. Empatia não é razão, Arandir é homem e homem precisa ser forte. Dúvida não justifica, Arandir é homem e homem sabe das coisas. Luxúria é impossível,

Arandir é homem e homem não sentem isso por outro homem. Ele é homem e homem não faz esse tipo de coisa. Naquele momento Arandir percebeu, ele sabe quantos beijos no asfalto são necessários para matar um homem. Ele sempre soube. Todos sabem.

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