Entre ironias, espelhos e almas humanas, o Bruxo do Cosme Velho ainda sussurra ao leitor do século XXI.
Por João Pedro Nogueira Rufino
“Ao vencedor, as batatas.”
— E ao leitor, o espelho.
Ler Machado de Assis é, antes de tudo, aceitar um convite à desconstrução. Não a do enredo, nem a das convenções narrativas — que ele também destrói com prazer —, mas a da própria condição humana. Em seus contos, os sentimentos e contradições desfilam com naturalidade, como se cada personagem carregasse uma lente de aumento sobre o coração humano. E, convenhamos, poucos escritores foram tão minuciosos e realistas ao mostrar nossas fraquezas.
Machado nunca precisou de heróis. Bastava-lhe uma cartomante, um alferes diante do espelho ou um simples funcionário público para revelar a alma de um século. Em O Espelho, por exemplo, ele nos lembra que cada um possui duas almas — uma que o mundo vê e outra que se oculta atrás das aparências. Já em A Cartomante, o autor brinca com a fé e o destino, mostrando que o medo do futuro às vezes fala mais alto que a razão. Nenhuma dessas histórias precisa de grandes reviravoltas; basta uma frase sussurrada para que o leitor perceba: é de si mesmo que o texto fala.
A ironia machadiana é discreta, quase cortês. Não ri do leitor — ri com ele, e depois o deixa desconfortável com o riso. É o tipo de ironia que ensina sem pregar, critica sem apontar o dedo e revela sem acusar. Ler seus contos é descobrir que a moral, para Machado, é apenas mais um disfarce social — e que a sinceridade costuma vestir máscara. Há uma lucidez ácida em cada linha, como quem serve café forte em taça de cristal.
E o que há de moderno nisso tudo? Tudo. Em tempos de leituras apressadas, os contos machadianos lembram que a brevidade pode ser profunda. São textos curtos, sim, mas densos, complexos, cheios de pausas que pedem releitura. Neles, encontramos não apenas o Brasil do século XIX, mas o humano atemporal: o ciumento, o hipócrita, o apaixonado, o ambicioso. Se trocássemos a pena pelo teclado e o bonde pelo celular, os conflitos continuariam os mesmos.
Ler Machado hoje é um exercício de atenção. Não há algoritmo que resuma a ironia de um narrador que mente, nem ferramenta que substitua o prazer de perceber o que não foi dito. Seus contos pedem um leitor curioso, disposto a pensar, duvidar e rir — de si mesmo, sobretudo. O Bruxo do Cosme Velho continua moderno porque fala conosco no presente: basta que o ouçamos sem pressa.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
— escreveu Brás Cubas.
Talvez Machado não tenha deixado herdeiros diretos, mas seus contos continuam gerando leitores — e, quem sabe, espelhos. Cada página é um convite a reconhecer o disfarce social que usamos e a rir, com elegância, do próprio reflexo.
Ler Machado de Assis é, portanto, mais do que um hábito literário: é um ato de coragem. Porque, no fim das contas, o espelho devolve exatamente aquilo que preferimos não ver.
E dirá o leitor que exagero; pois bem, que leia Machado e me desminta. Mas mesmo que não o faça, sobrará a ti, o verme — a única certeza no mundo.
