O Trovadorismo e a Cultura Pop: uma breve comparação entre cantigas medievais e músicas modernas

Por Ana Júlia de Melo Conceição

Embora a Idade Média tenha chegado ao fim há séculos, seu legado ainda está presente, especialmente na arte e na literatura. As antigas cantigas trovadorescas, feitas há mais de 700 anos, continuam a ressoar nas letras das músicas atuais, independentemente do gênero musical.

Durante as aulas de literatura, é possível perceber como os temas medievais, como o amor idealizado, a saudade e a devoção, atravessaram o tempo e se reinventaram na cultura moderna. Hoje, os trovadores deram lugar a compositores e intérpretes que, através da música, continuam expressando sentimentos universais. Isso mostra que a poesia medieval foi apenas o começo de um estilo que permaneceu vivo por muitos anos e ainda ressoa na música moderna. A melodia é parte integrante da literatura portuguesa, tendo papel fundamental na criação das poesias trovadoras, por conta disso essas poesias, além de serem criadas por nobres, tinham um forte caráter oral, sendo transmitidas principalmente por meio do canto.

Na época, a divulgação ficava a cargo dos jograis e menestréis, artistas que percorriam aldeias, feiras e castelos; levando música e diversão para o povo. Hoje, podemos traçar um paralelo entre esses artistas medievais e os cantores contemporâneos que realizam turnês pelo mundo, lotando estádios e arenas. Além disso, as plataformas de streaming cumprem um papel semelhante ao dos menestréis e jograis: difundir a música e torná-la acessível a todos.

Existiam quatro tipos de cantigas, as de amor, amigo, escárnio e maldizer, das quais suas características podem se encaixar em músicas atuais. A cantiga de amor por exemplo, é caracterizada por um amor idealizado e impossível por uma dama. Um exemplo dessas características é a canção “Por Você” do grupo. Na música popular um exemplo claro de cantiga de amor ou é a canção “Por Você”, do grupo Barão Vermelho, que fala sobre o amor e a entrega do eu lírico:

“Por você eu dançaria tango no teto /
Eu limparia os trilhos do metrô /
Eu iria a pé do Rio a Salvador /
Eu aceitaria a vida como ela é.”


Já a canção “I Wish You Would”, da cantora Taylor Swift, lembra as cantigas de amigo, com versos que expressam saudade e o desejo de reencontro:

“And I wish you knew that I miss you too much to be mad anymore”
“E eu gostaria que você soubesse que eu sinto muito a sua falta para
ainda estar com raiva”).

As cantigas de escárnio e maldizer se assemelham muito ao estilo de rap, onde surgem críticas a um sistema ou mesmo a uma pessoa envolvendo características exageradas e satíricas, como é o caso da música Not Like Us do Rapper Kendrick Lamar. Em “Montero (Call Me By Your Name)”, o rapper Lil Nas X desafia normas religiosas e sociais, utilizando ironia e provocação para afirmar sua identidade queer, um “maldizer” contra o preconceito e as estruturas que historicamente desumanizam pessoas LGBTQ+. Já o grupo sul- coreano BTS, na canção “Fake Love”, apresenta uma crítica à falsidade nas relações:

“Eu plantei uma flor que não pode florescer /
Em um sonho que não pode se tornar real. /
Eu estou tão cansado desse amor falso.”

Por mais que não seja um ataque direto a música destaca o desgaste emocional causado por uma relação falsa, sem citar diretamente a pessoa causadora da dor.Embora a forma como é produzida, os instrumentos e as vozes mudem, sentimentos humanos e a vontade de se expressar sempre vão existir. A música e a literatura estão presentes na nossa vida desde os tempos remotos, e nela se encontra uma forma atemporal da expressão universal de sentimentos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *