Entre cartas e memórias, Camilo Castelo Branco e Stênio Gardel mostram que a palavra é eterna

Por Gustavo Domingues Borges

Entre cartas guardadas e silêncios que duram uma vida, há palavras que teimam em ficar. Em Camilo Castelo Branco e Stênio Gardel, o amor, o tempo e a solidão cruzam-se como destinos inevitáveis. Escritos com mais de um século de distância, Amor de Perdição (1862) e A palavra que resta (2021) falam de afetos que apenas puderam existir na sombra, e da escrita como o último refúgio perante a ausência.

Camilo Castelo Branco, ícone do romantismo português, escreveu ‘Amor de Perdição’  em um impulso, em quinze dias, enquanto esteve preso. O tormento de Simão e Teresa, separados pela moral religiosa e pelo rigor familiar, é hoje um dos grandes mitos do amor apaixonado e trágico da língua portuguesa. Já Stênio Gardel, autor cearense contemporâneo, dá conta em A palavra que resta da vida de Raimundo, um homem que aprende a ler para poder decifrar a carta deixada por seu amante, um gesto de alfabetização que é também de libertação.

O tempo atua de forma oposta em cada autor: em Camilo, destrói; em Gardel, redime. Enquanto o século XIX vê o amor como maldição, o XXI o reconquista como resistência. Para Simão é sentença, para Raimundo, oportunidade tardia de reconciliação. Em ambos, o amor sobrevive na palavra escrita: as cartas são o corpo do sentimento, substituem o toque e transformam o silêncio em permanência.

Ler Gardel e Camilo é perceber que, para lá das épocas e dos pudores, o amor segue à espreita da sua voz. As palavras que ficam são aquelas que apenas não puderam ser proferidas, mas que, ao passarem à escrita, se tornam eternas. Entre grades, lembranças e letras, estes dois autores provam que é na solidão que a literatura encontra a sua mais profunda forma de companhia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *