Escritores lusófonos do continente africano ganham espaço retratando temas como memória histórica, críticas ao colonialismo e reflexões sobre a sociedade pós-colonial
Por Eunice Vitória Rodrigues Moura, Mêres Milena Lima Milhomem e Samuel Rodrigues dos Santos
Quando se pensa em literatura em língua portuguesa, automaticamente é ativada a lembrança de nomes como Luís de Camões, Eçá de Queiroz e José Saramago, figuras importantes e relevantes para a literatura de Portugal, e até mesmo Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, escritores que deixaram sua marca e se tornaram símbolos da literatura brasileira. Contudo, o termo “literatura em língua portuguesa” não se limita apenas a esses dois países.
Em um mundo globalizado, surge a oportunidade de conhecer e explorar outras literaturas. Nesse cenário, escritores lusófonos do continente africano têm ganhado destaque por produzir uma literatura que impacta pela qualidade da escrita e pela relevância dos temas abordados nas narrativas.
Autores como Mia Couto, de Moçambique, e José Eduardo Agualusa, de Angola, levaram a literatura africana pós-colonial a um reconhecimento internacional, utilizando a língua portuguesa como veículo de identidade, resistência e reconstrução cultural. Ainda assim, as literaturas africanas lusófonas permanecem pouco conhecidas por grande parte do público, reflexo de um imaginário que, mesmo após séculos do fim da colonização, ainda tende a valorizar a cultura europeia como superior ou mais “culta” em detrimento das demais expressões culturais.
Essa desigualdade de visibilidade reflete o que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie define como “o perigo de uma história única” — a tendência de enxergar povos e culturas a partir de uma narrativa dominante, que apaga outras vozes e experiências. Ao reconhecer a riqueza das literaturas africanas em língua portuguesa, abrem-se caminhos para uma perspectiva decolonial, que busca romper com as hierarquias herdadas do colonialismo e valorizar as múltiplas formas de expressão e conhecimento em português produzidas fora do eixo Portugal-Brasil.
Além de Mia Couto e Agualusa, nomes como Paulina Chiziane, primeira mulher moçambicana a publicar um romance, e Ondjaki, conhecido por seu olhar poético sobre a Angola contemporânea, têm contribuído para consolidar a presença da literatura africana lusófona no cenário mundial. As produções de cada um dos autores não apenas ampliam o repertório da literatura em língua portuguesa, como também desafiam fronteiras linguísticas e culturais, revelando que o português é uma língua viva, plural e aberta a novas formas de expressão.
