Brasília recebe Coração sem medo, último da Trilogia da Terra 

Por Dayse Muniz, professora do curso de Letras do UDF

Os tortoaraders de Brasília estão em polvorosa nesta semana. No dia 14 de outubro Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, lançou o terceiro livro da Trilogia da Terra na Caixa Cultural, às 19h. 

O autor, que tem uma legião de fãs na capital, disse em suas redes sociais que decidiu fazer o lançamento em Brasília porque é sempre bem recebido por aqui, e isto é um fato. Na sua última vinda, no lançamento do infantil Chupim, o escritor passou mais de cinco horas dando autógrafos. Simpático e acessível, Itamar conquistou o coração de todos que curtem a boa literatura contemporânea. 

Ainda nas primeiras páginas de Coração sem medo, que comprei na pré-estreia, já sinto a emoção da ressaca literária e de mais um arco com mulheres fortes e determinadas, como o são Belonísia, Bibiana e Luzia. Rita Preta, a última das protagonistas de Itamar, também é uma mulher que luta contra o racismo, a pobreza e a invisibilidade que machucam tantas pessoas em nosso país. Mãe solo de três filhos e caixa de supermercado, Rita Preta vê a sua vida mudar bruscamente quando Cid, seu primogênito, some sem deixar rastros. Nos capítulos iniciais, tudo o que sabemos é que ele foi levado pela polícia – e temo que Cid seja mais uma estatística da necropolítica, a política de morte que mata os jovens negros com mais frequência do que qualquer outro estrato social. De acordo com o Atlas da Violência de 2025,

Observa-se que, além do número absoluto de homicídios entre não negros ser consistentemente menor, sua redução ao longo do período de onze anos analisado foi mais significativa do que entre negros. Tal descompasso revela, com ainda mais clareza, o padrão de tratamento diferenciado, que se acentua ao analisarmos o risco relativo de homicídio: em 2023, uma pessoa negra tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra – aumento de 15,6% em relação a 2013. Ou seja, apesar dos avanços na diminuição geral dos homicídios, a desigualdade racial associada à violência letal não apenas persiste, como se intensifica (Ipea, 2025, p. 73).

Foto: Dayse Muniz

A escrita sensível de Itamar, tão alinhada aos graves problemas que enfrentamos enquanto sociedade brasileira, também impacta pela qualidade estética. Enquanto conhecemos as histórias de amor e dor de Rita Preta, nos deleitamos com as lições de vida e de linguagem que o autor nos deixa. Para os curiosos, deixo um trechinho: “O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida.”

Boa futura leitura! 

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