Por Lucas Gabriel Oliveira Leal
Como o ENADE reflete (ou não) a qualidade real do ensino superior O ENADE mede o ensino ou o sistema? Um olhar sobre as tensões entre avaliação e aprendizado O ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) ocupa papel central no debate sobre a qualidade da educação superior no Brasil. Integrante do SINAES, o exame visa aferir conhecimentos gerais e específicos de estudantes, incentivando que as instituições reavaliem seus rumos a partir de indicadores públicos. Contudo, há tensão entre o que o ENADE realmente mede e o que se entende por qualidade real do ensino.
Renato Pedrosa, da Conaes, critica a ausência de uma escala de proficiência estável que permita comparações entre edições, apontando que a maior falha do Enade é a falta de comparabilidade entre os anos. Também observa que o exame, composto por apenas 30 questões por curso, limita a abrangência e a profundidade da avaliação. Para ele, o ENADE não reflete tudo o que o estudante aprendeu, sendo somente uma amostra do percurso formativo.
O exame integra o SINAES junto à avaliação institucional e à de curso, alimentando indicadores como o CPC e o IGC, que impactam reconhecimento, regulação e financiamento das instituições. Assim, a prova, que poderia ser apenas diagnóstica, também se torna instrumento regulatório, influenciando o mercado universitário. Em busca de prestígio e recursos, muitas instituições acabam moldando suas práticas para favorecer os resultados, treinando alunos, reorganizando turmas e priorizando conteúdos recorrentes, o que pode gerar ganhos numéricos sem, contudo, traduzir aprendizado efetivo.
A partir de 2025, o ENADE passou a ser aplicado em modalidades distintas: licenciaturas com avaliação prática, bacharelados e tecnólogos. Em áreas como Medicina, sendo anual, ampliando seu peso regulatório. O Inep também planeja um fluxo trienal contínuo, com provas, autoavaliação e visitas in loco, buscando reduzir o caráter pontual do exame e reforçar o acompanhamento das instituições.
Essas mudanças evidenciam o duplo papel do ENADE como instrumento de avaliação e de controle. Quanto mais ele se torna decisivo para o reconhecimento de cursos, distribuição de recursos e rankings, mais as instituições tendem a alinhar suas práticas aos critérios da prova, às vezes em detrimento da inovação e da autonomia acadêmica.
Um modelo de avaliação mais justo deveria combinar rigor e pluralidade, integrando provas objetivas a métodos qualitativos, como visitas, entrevistas, portfólios e pareceres especializados, capazes de captar dimensões que os testes não alcançam, como identidade institucional e coesão curricular. Também é essencial ampliar a transparência metodológica, com critérios claros e escalas públicas, além de oferecer apoio técnico às IES com menor estrutura.
Por fim, seria produtivo adotar uma lógica evolutiva de avaliação, comparando o desempenho dos estudantes ao ingressar e ao concluir o curso. Isso valorizaria o progresso real e a efetividade pedagógica, substituindo a lógica punitiva e ranqueadora por uma perspectiva de aprimoramento contínuo da educação superior.
