A sagacidade em Amor de Perdição em contraste com a produção de humor contemporâneo

Por Gleicianne Carneiro Conceição e Melissa Kelen Nunes Martins 

Uma análise do humor e ironia presentes no romance português comparados à produção de humor nas redes sociais.  

“— É vossa senhoria, fidalgo? — bradou o ferrador.  

— Sou.  

— Não o mataram?  

— Creio que não — respondeu Simão.”  

(CASTELO BRANCO, 1983, p. 61)  

Escrita no século XXI, em 1961, a obra portuguesa Amor de Perdição conta com um narrador indubitavelmente irônico, que em certos momentos se diverte com as falas, tons e posicionamento das personagens do romance. Muitas vezes, o humor sempre sutil dos protagonistas ou até de secundários, se dá por uma constatação óbvia de fatos. Essa forma de construir o “cômico” não apenas perdura às produções de humor atuais, mas se torna seu pilar base.  

O óbvio, o exagero e a própria tragédia humana são constantes na produção contemporânea. Nas redes sociais, frequentemente produz-se graça a partir de adversidades cotidianas e de emoções intensas, elementos que movem o drama romântico do século XIX. Assim como o narrador de Camilo ironiza a idealização do amor e a falta de controle dos sentimentos através de Simão e Teresa, pessoas em redes sociais também satirizam as contradições humanas manifestadas constantemente. A personagem Teresa, por exemplo, quando em um convento se depara com figuras autoritárias tidas como “fofoqueiras”. Diante disso, seu humor ácido, com comentários carregados de crítica passam despercebidos por àqueles a quem insultam, em demasia por sua astúcia velada.  

Essa conexão entre o humor literário (irônico e sutil) e o presente em nossa realidade, elucida não uma coincidência de estilo, mas uma continuidade na forma humana de enfrentar situações adversas. De Amor de Perdição aos memes de hoje, a ironia enquanto humor, seja em 1861 ou em 2025, permanece um espelho de nossas reações e emoções. 

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