Por Luana Maia, bolsista PIBIT sob orientação de Dayse Muniz
Ler “Se um viajante numa noite de inverno” de Italo Calvino foi a experiência mais singular e imersiva que vivenciei ao ler um livro. A narrativa inicia como algumas já vistas, dialogando com o leitor: “Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo à sua volta se dissolva no indefinido”.
Atendida a súplica do autor, entreguei-me à leitura, que logo começou a causar uma íntima estranheza ao mudar o estilo de escrita e começar a narrar a história do tal viajante na noite de inverno. Quando finalmente pensei ter me conectado com esse viajante, minha leitura foi interrompida por páginas repetidas. Ainda assim, prossegui a leitura, pois ter esperança é sina de todos aqueles que iniciam um livro. Foi então que o personagem me mostrou que estava no caminho certo ao dizer:
“…me chamo “eu”, isso é tudo que você sabe sobre mim, mas é suficiente para que possa sentir-se levado a investir parte de si próprio neste eu desconhecido, assim como fez o autor, que, sem ter tido a intenção de falar de si mesmo, decidiu denominar “eu” sua personagem.”
Ao longo da narrativa, me deparei com a história de um personagem leitor que assim como eu-leitora real, está passando pelo mesmo problema com uma edição do livro que parece defeituosa. Neste ponto, o diálogo até então convencional entre autor e leitor, se transforma em uma experiência transcendental, e que embora confusa, é também surreal e intrigante.
É um livro que alcança camadas que vão além da escrita autoconsciente. Calvino advinha nossos passos com convicção, como se estivesse nos observando às escondidas. Essa obra é a expressão pura da metalinguagem e dos sentimentos grandiosos e prazerosos que a literatura evoca, utilizando de uma sentimentalidade escrita que intensifica o humano.
Dessa forma, passei a enxergar a mim mesma, como leitora, como escritora e até como livro, como se me tornasse algo indissociável do processo de leitura e seus efeitos. A situação vivida simultaneamente por quem lê e pelo personagem, aflora uma intimidade e sentimentalidade que permite que o ocorrido se torne metáfora de vida:
“Você tem uma noite agitada, o sono é um fluxo intermitente e obstruído como a leitura do romance, com sonhos que lhe parecem ser a repetição de um sonho sempre igual. Você se debate com esses sonhos que, como a vida, não têm sentido nem forma, procurando descobrir-lhes o desígnio, o rumo que deve seguir, como quando você começa a ler um livro e ainda não sabe em que direção ele o levará”.
Portanto, “Se um viajante numa noite de inverno” relembra como a literatura é um artifício humano encantador e superiormente interessante, é um livro sinestésico que, com descrições precisas evoca sensações que nem a barreira das páginas é capaz de impedir que toquem o leitor. Ele transcende a tudo, inclusive qualquer palavra por mim dita, pois a única forma de entender a singularidade desta obra é, assim como eu, imergir-se nela.
